A cientificidade do polígrafo – o detector de mentiras?

Imagine tentar entender o cérebro humano sem tomografia, sem ressonância magnética, sem eletroencefalografia — nada. Durante séculos, grande parte do que a ciência sabia sobre o sistema nervoso vinha de uma técnica chamada de ablação, que consistia em remover ou danificar partes do cérebro de animais para observar o efeito no comportamento. Outros estudos chamados post-mortem, faziam autopsias no cérebro de humanos e animais após a sua morte para posteriormente analisar suas estruturas. Em outras palavras: para conhecer o cérebro, era preciso esperar que ele parasse de funcionar. Esses procedimentos funcionavam até certo ponto, mas deixava uma pergunta martelando na cabeça dos cientistas: é possível saber o que se passa na cabeça das pessoas enquanto elas estão vivas?

Hoje, a neurociência dispõe de ferramentas impressionantes para investigar processos mentais e atividade e do cérebro em funcionamento — como a própria ressonância magnética funcional (fMRI), citada anteriormente —, mas no fim do século XIX essa pergunta soava quase poética, beirando o sobrenatural. E justamente por causa dela, algumas das ferramentas mais improváveis da história da ciência começaram a surgir — incluindo uma que se tornaria personagem recorrente em filmes policiais, séries e até reality shows: o polígrafo.

Evolução histórica das medidas psicofisiológicas

A história do polígrafo, no entanto, está longe de começar pela detecção de mentiras, como costumamos imaginar hoje. Começa com curiosidade científica genuína. Esse percurso histórico foi tão rico que, décadas mais tarde, um grupo de pesquisadores — em um artigo publicado por Synnott, Dietzel e Ioannou em 2015 — reconstruiu essa trajetória com detalhes, mostrando como diferentes ideias, técnicas e personalidades se entrelaçaram até resultar no instrumento que conhecemos hoje. Nesse texto, vamos descobrir um pouco sobre esse processo e sobre a origem do polígrafo.

Figura 1. Foto de Angelo Mosso utilizando um de seus aparatos para medição fisiológica. Fonte: Imagem retirada do artigo de Sandrone et al. (2014).

Um dos pioneiros dessa aventura foi Angelo Mosso, considerado por muitos como o “pai da neuroimagem”. Ele desenvolveu o chamado Método Mosso, capaz de registrar alterações na circulação sanguínea do cérebro enquanto uma pessoa realizava tarefas mentais. Para padrões atuais, o aparato era rudimentar; para sua época, era brilhante! Mosso mostrou que mudanças fisiológicas acompanhavam processos mentais — um princípio fundamental que seria reaproveitado por praticamente todas as tecnologias de neuroimagem criadas posteriormente. E, de modo indireto, forneceu uma das bases conceituais para aquilo que mais tarde seria chamado de polígrafo. Mas o caminho até o polígrafo moderno seria muito mais tortuoso, envolvendo criminologistas, fisiologistas, psicólogos e até o criador da Mulher-Maravilha!

Figura 2. Foto de Cesare Lombrosso e seus estudos sobre morfologia da face de criminosos. Fonte: Imagens originais retiradas da Wikipédia, com edição feita por inteligência artificial com o modelo Google Gemini 3 Pro (versão 2025).

No final do século XIX e início do XX, pesquisadores começaram a investigar alterações fisiológicas associadas ao estresse emocional. Um dos mais conhecidos foi Cesare Lombroso, considerado o pai da criminologia científica. Embora muito das suas teorias sobre aspectos biológicos e inatos sobre a criminalidade esteja hoje superado (e com bons motivos), ele teve um papel importante ao tentar relacionar reações corporais a estados psicológicos durante interrogatórios. Lombroso trabalhava com medidas como pulso e pressão, acreditando que emoções fortes deixavam marcas fisiológicas detectáveis.

Figura 3. Foto de Vittorio Benussi suas Investigações sobre Resposta Autonômica Emocional. Fonte: Imagens originais retiradas do artigo de Antonelli (2019). 

Logo depois, o psicólogo Vittorio Benussi aprofundou o estudo da pneumografia, registrando padrões respiratórios em situações de engajamento cognitivo e tensão. Benussi acreditava que a respiração mudava de maneira relativamente sistemática quando alguém tentava enganar outra pessoa — uma hipótese ousada, mas que gerou métodos mensuráveis.

Figura 4. Foto de William Moulton Marston, criador da Personagem Mulher Maravilha. Fonte: Imagens originais retiradas da Wikipedia

Enquanto isso, nos Estados Unidos, William Moulton Marston — o mesmo que mais tarde criaria a Mulher-Maravilha. Sim, o criador da guerreira amazona, super-heroina da DC Comics e uma das fundadoras da Liga da Justiça, explorava alterações na pressão arterial como possível pista de engano. Marston sugeriu que o aumento súbito da pressão sanguínea poderia acompanhar tentativas de mentir. Hoje sabemos que a relação não é tão simples, mas seus trabalhos influenciaram diretamente o próximo passo da história.

Figura 5. Foto de John Augustus Larson (a), criador do Primeiro Poligrafo e Leonarde Keeler (b). Fonte: Imagens originais retiradas Getty Images.

E esse passo veio em 1921, quando John Augustus Larson, policial e médico, combinou essas diferentes medidas em um único aparelho. Ele criou o primeiro polígrafo funcional, capaz de registrar simultaneamente respiração, pulso e pressão arterial. Pela primeira vez, emoções e reações fisiológicas eram acompanhadas em múltiplos canais, de forma contínua. Poucos anos depois, Leonarde Keeler aperfeiçoou o instrumento ao adicionar a resposta galvânica da pele (a famosa GSR ou condutância eletrodérmica), tornando o aparelho muito mais sensível a mudanças associadas ao sistema nervoso autônomo. O polígrafo moderno começava a ganhar sua forma clássica: composto por três canais principais, o equipamento detectava vários traçados simultâneos, todos sensíveis à ativação emocional.

Como o polígrafo funciona do ponto de vista neurofisiológico?

Apesar da aura de mistério e das cenas dramáticas do cinema, o polígrafo é, essencialmente, um conjunto de sensores presos ao corpo para monitorar sinais fisiológicos regulados pelo sistema nervoso autônomo. A lógica por trás do exame é direta: emoções intensas — como ansiedade, medo ou apreensão — ativam o sistema simpático, responsável pela clássica resposta de “luta ou fuga”. Essa ativação produz mudanças imediatas no organismo, e o polígrafo registra várias delas.

A pressão arterial e a frequência cardíaca, por exemplo, aumentam quando o simpático entra em ação. O equipamento capta essas variações por meio de um manguito de pressão e sensores de pulso (igual os medidores de pressão domésticos). A respiração também se altera: estados emocionais modificam o ritmo e a profundidade respiratória, algo detectado pelos pneumógrafos colocados ao redor do tórax e do abdômen. Por fim, há a condutância eletrodérmica, considerada o indicador mais sensível. As glândulas sudoríparas, controladas pelo sistema nervoso simpático, liberam pequenas quantidades de suor carregadas de eletrólitos; isso torna a pele mais condutiva, permitindo que uma corrente elétrica mínima percorra sua superfície com maior facilidade. Dois eletrodos registram essas mudanças em tempo real.

Figura 6. Representação das glândulas sudoríparas e de um eletrodo para captação da resposta galvânica da pele. Fonte: Imagens originais retiradas Biologianet.

Mas afinal… o polígrafo atual funciona?

Depende do que se espera dele. Quando a pergunta é: “Ele detecta bem respostas emocionais e alterações do sistema nervoso?”, a resposta é sim! Em estudos de psicofisiologia, o polígrafo é valioso. Ele revela, com boa sensibilidade, quando alguém: ficou mais ansioso, experimentou aumento de sudorese, teve mudanças respiratórias, ou ativou o sistema simpático por qualquer motivo. Um exemplo comum seria alterações imperceptíveis do corpo ao ver fotografias que representam ameaça, como uma onça ou um animal peçonhento. Mesmo de forma sutil, nosso corpo reage a esses estímulos, ativando o sistema simpático e nos preparando para emitir uma resposta de luta ou fuga. Diante disso, o poligrafo – ou alguma medida dele – ainda é usado em pesquisas sobre emoção, tomada de decisão, estresse e memória.

No entanto, quando a pergunta muda para: “O polígrafo é um detector confiável de mentiras?”, a resposta científica é não! A mentira não produz um padrão fisiológico universal. Cada pessoa responde de um jeito. Algumas ficam nervosas apenas por estarem sendo avaliadas; outras conseguem permanecer incrivelmente calmas mesmo quando mentem. Diversos fatores — ansiedade social, medo, vergonha, experiência anterior com interrogatórios — interferem nas medições. Revisões históricas e análises críticas, como do pesquisador polonês Jan Widacki em 2019, e vários trabalhos posteriores, mostram que no contexto forense o polígrafo apresenta limitações importantes. O problema é intensificado por algumas escolas de poligrafia, especialmente fora do meio acadêmico, que divulgam protocolos pouco rigorosos ou até pseudocientíficos, reforçando a crença popular de que existe um “detector de mentiras infalível”. Essa propaganda atrai empresas e até governos que querem formas mais “cientificas” de contratar funcionários mais honestos, ou agilizar processos criminais, oferecendo a prova final de culpa ou inocência.

No geral, o polígrafo é uma ferramenta psicofisiológica que mede alterações do sistema nervoso decorrentes de respostas emocionais. Ele é útil e extremamente valioso para fins científicos, mas isso não significa que ele consiga detectar mentiras. E talvez justamente por isso ele tenha encontrado uma segunda carreira inesperada: o entretenimento. Quem já assistiu ao polígrafo sendo usado por Hector Boligrafo durante entrevistas protagonizadas pela Tatá Werneck no programa Lady Night sabe que ele rende momentos hilários — provavelmente o uso mais apropriado atualmente quando se trata de detecção de mentiras, ou seja, o humor.

Para saber mais

Referências

Antonelli, M. (2019). Vittorio Benussi: A Difficult Life, a Tragic Fate. In Vittorio Benussi in the History of Psychology: New Ideas of a Century Ago (pp. 101-143). Cham: Springer International Publishing.  https://doi.org/10.1007/978-3-319-96684-7

Li, S., Sung, B., Lin, Y., & Mitas, O. (2022). Electrodermal activity measure: A methodological review. Annals of Tourism Research, 96(0), 1–12. https://doi.org/10.1016/j.annals.2022.103460

Sandrone, S., Bacigaluppi, M., Galloni, M. R., Cappa, S. F., Moro, A., Catani, M., … & Martino, G. (2014). Weighing brain activity with the balance: Angelo Mosso’s original manuscripts come to light. Brain137(2), 621–633. https://doi.org/10.1093/brain/awt091

Synnott, J., Dietzel, D., & Ioannou, M. (2015). A review of the polygraph: History, methodology and current status. Crime Psychology Review, 1(1), 59–83. https://doi.org/10.1080/23744006.2015.1060080

Widacki, J. (2019). Attempts at lie detection based on scientific premises on the end of 19 century and in the first half of the 20 century. European Polygraph, 13(3), 121–139. https://doi.org/10.2478/ep-2019-0009

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Capa do post: imagem gerada por inteligência artificial com o modelo Google Gemini 3 Pro (versão 2025).


Sobre o autor

Edimilson dos Santos Gonçalves. Psicólogo (UnB), escritor, mestre e doutorando em Ciências do Comportamento (UnB). Atualmente, investiga o efeito da expectativa em intervenções comportamentais e tem interesse na interface entre cognição e tecnologia. É divulgador científico no canal Piticologia, curte assistir animes e jogar videogame.

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Gonçalves, E. S. (2025, 20 de dezembro). Que bobagem! A cientificidade do polígrafo – o detector de mentiras? Eu Percebo. https://eupercebo.unb.br/2025/12/20/que-bobagem-a-cientificidade-do-poligrafo-o-detector-de-mentiras/

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