A pupila reage a estímulos sociais

Você já ouviu a expressão “os olhos são a janela da alma”? Pois bem, a ciência mostra que eles também podem ser janelas para compreender processos sociais e emocionais que muitas vezes acontecem fora da nossa consciência.

Um estudo conduzido por nosso grupo, o Grupo de Pesquisa em Cognição Visual da Universidade de Brasília, em parceria com outras instituições nacionais e com o Centro de Investigação em Complexidade Social (Chile), investigou como pistas visuais de status socioeconômico afetam o tamanho da pupila. Esta abertura no centro do olho regula a entrada de luz, mas que também tem seu diâmetro alterado conforme nosso estado emocional e cognitivo. Em um texto aqui do blog exploramos o método chamado Pupilometria Cognitiva, e como a pupila pode ser um indicador respostas emocionais autonômicas.

Figura 1. Uma pupila dilatando. Retirado de: hipertextual.com

O experimento

Em um ambiente altamente controlado, principalmente em termos de luminosidade ambiente, os participantes foram expostos a imagens cuidadosamente selecionadas de um banco de imagens, o SocialPICS, que contém fotos de pessoas em ações cotidianas e de ambientes que remetem a diferentes níveis socioeconômicos. Importante: as imagens não traziam conteúdo explicitamente emocional, como rostos tristes ou cenas de perigo. Ahh, detalhe… foi o nosso grupo de pesquisa que construiu e validou esse banco de imagens.

Vídeo 1. Ambiente “controlado” de laboratório. Fonte: próprio autor.
Figura 2. Imagens com conteúdo de status socioeconômico com nomalização de brilho e contraste utilizadas no estudo. Adaptado de Araujo et al. (2024).

Enquanto os participantes passivamente observavam as imagens, um equipamento de rastreamento ocular registrava continuamente o tamanho de suas pupilas. A ideia era verificar se sinais sutis de status social, mesmo sem carga emocional óbvia, poderiam provocar alterações fisiológicas automáticas.

Vídeo 2. Reconhecimento da pupila por um equipamento de rastreamento ocular. Fonte: próprio autor.

Nossos resultados revelaram que o status socioeconômico foi um preditor significativo de alterações do tamanho da pupila, sendo que imagens de baixo status socioeconômico provocaram maior dilatação pupilar do que as de alto status. Além disso, e como já era esperado, as imagens de ações humanas provocaram maior dilatação pupilar quando comparadas às imagens de ambientes. Esses resultados se mantiveram mesmo quando foram considerados idade, sexo e status socioeconômico subjetivo dos participantes.

Figura 3. Nossos resultados evidenciaram que o status socioeconômico das imagens (eixo X: SES) foi um preditor do tamanho de pupila (eixo y: baseline-corrected pupil size), sendo o efeito mais pronunciado para imagens de ações humanas (linha azul) comparadas a imagens de ambientes (linha vermelha).

Essas reações da pupila ocorrem de forma rápida e involuntária, sugerindo que nosso corpo é sensível a informações sociais mesmo quando não estamos ativamente pensando nelas. Importante: os participantes só souberam o objetivo da pesquisa depois de terminada a sessão experimental. Também vale ressaltar que essas alterações de tamanho são mínimas e só conseguimos observá-las em ambientes controlados por meio de um equipamento de rastreamento ocular.

Por que isso é importante?

A pesquisa mostra que informações sobre status social são processadas automaticamente pelo nosso sistema nervoso autônomo, com um tom afetivo e dentro de um contexto social. Além disso, o estudo reforça o uso da pupilometria cognitiva como ferramenta para investigar processos afetivos e sociais sutis, com o potencial para aplicação em pesquisa sobre estereótipos, vieses afetivos implícitos e mecanismos neurais de avaliações sociais.

Em resumo

Nossas pupilas não apenas reagem à luz, mas também aos significados sociais do mundo ao nosso redor. Esse trabalho abre caminho para novas formas de compreender como desigualdades sociais são codificadas em nossos processos psicológicos básicos, como a percepção visual! E que estão literalmente nos olhos de quem vê, como no caso da resposta pupilar.

Nota final

Este trabalho foi idealizado por pesquisadores brasileiros de uma universidade pública federal, conduzido com apoio de colaboração latino-americana e financiado pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). Quando o estudo for publicado, vamos atualizar o post com o link do artigo.

Figura 4. Caramelo brasileiro. Crédito: Twitter (@dntmandon).

Para saber mais

Araujo, A. B. S. M., Bernardino, L. G., Souza, R. R., Grebot, I. B. F., & de Moraes, R., Jr. (2024). SocialPICS: A novel validated database of socioeconomic-content image. Trends in Psychology. https://doi.org/10.1007/s43076-024-00377-0

Cheng, Y., Liu, W., Yuan, X., & Jiang, Y. (2021). The eyes have It: Perception of social interaction unfolds through pupil dilation. Neuroscience Bulletin37(11), 1595–1598. https://doi.org/10.1007/s12264-021-00739-z

Joshi S. (2021). Pupillometry: Arousal state or state of mind? Current Biology31(1), R32–R34. https://doi.org/10.1016/j.cub.2020.11.001

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Capa do post returado de: theladders.com


Sobre o autor

Rui de Moraes Jr.  é Doutor em Psicobiologia pela Universidade de São Paulo e professor do Departamento de Processos Psicológicos Básicos da Universidade de Brasília.

Termos de reprodução e divulgação do texto

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de Moraes, M., Jr. (2025, 15 de setembro). A pupila reage a estímulos sociais. Eu Percebo. https://eupercebo.unb.br/2025/09/15/a-pupila-reage-a-estimulos-sociais/

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