Bebeu demais e está tudo girando em câmera lenta? Saiba o porquê

Sim, em algum momento da vida você viveu ou viverá a sensação de encher a cara e sentir que está tudo girando em câmera lenta, mesmo não estando. Esse tipo de sensação é chamada de vertigem, um fenômeno caracterizado por uma sensação errada ou distorcida do movimento do próprio corpo ou do ambiente ao seu redor, estando relacionada com alterações nas capacidades de equilíbrio e de coordenação motora. Alguém muito alcoolizado perde tais capacidades e, por isso, tem grandes chances de protagonizar tombos de respeito e ir ao chão, como é o caso da pessoa abaixo:

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Gif. Homem bêbado caindo. Retirada de: Giphy.

Mas afinal de contas, por que consumir álcool em excesso causa vertigem? Bem, o álcool, cientificamente chamado de etanol, causa vários efeitos no organismo e alguns deles têm esse tipo de consequência. Existem duas razões principais que explicam a vertigem resultante de uma bebedeira. A primeira está ligada a alterações no sistema vestibular e a segunda está ligada a alterações sinápticas que afetam bastante o funcionamento do cerebelo. Ambas as razões serão explicadas neste texto. 

Antes de falar das alterações causadas pelo álcool no sistema vestibular é importante explicar o que ele é. O sistema vestibular, também chamado de labirinto, é o nome dado a um conjunto de estruturas localizadas no ouvido interno. Esse sistema é constituído pelos canais semicirculares e pelos órgãos otolíticos, o sáculo e o utrículo. Sua função está ligada à manutenção do equilíbrio corporal. As estruturas do labirinto são preenchidas por um líquido e possuem células ciliadas. Quando movemos a cabeça ou quando o ambiente está em movimento rotacional (aceleração ou desaceleração com relação ao corpo) o líquido se movimenta causando o dobramento desses cílios. Tais cílios são células sensoriais e quando se movem sinalizam para o cérebro o movimento da cabeça ou do ambiente (veja Figuras 1 e 2).

Figura 1. Sistema vestibular e suas estruturas. Retirado de: EFQualivida.
Figura 2. Sistema vestibular e ação das células ciliadas. Retirado de nwfent.com.

Segundo estudos, o álcool é uma substância ototóxica, ou seja, pode prejudicar o ouvido.  Quando consumido em excesso, o etanol tem efeito negativo no aparelho vestibular causando vertigens. Isso acontece porque ele muda a composição e a densidade do líquido que fica dentro do labirinto e isso faz com que os cílios internos das estruturas vestibulares se curvem mais do que deveriam, o que faz o cérebro entender que você ou o ambiente está girando, mesmo tudo esteja totalmente parado. Inclusive, em indivíduos alcoólatras os prejuízos causados pelo álcool no sistema vestibular podem ser permanentes. Um estudo com frequentadores dos Alcoólicos Anônimos mostrou que 37,83% deles possuíam tontura frequente.

A outra razão que explica a influência negativa do álcool relacionada à vertigem está associada com os efeitos dessa substância sobre o cerebelo. Como o cerebelo é o centro de coordenação motora do sistema nervoso central, sendo também responsável pelo equilíbrio, o efeito prejudicial do álcool sobre esse órgão ajuda a explicar a desorientação espacial vivida quando ingerimos bebidas alcoólicas exageradamente. O etanol aumenta a atividade de receptores GABA (que tem efeitos inibitórios para o sistema nervoso central). A ativação dos neurônios do cerebelo é fortemente controlada por esses receptores, de modo que alterações nessa neurotransmissão implicam no comprometimento da função cerebelar. Segundo publicações da área, as alterações causadas pelo etanol afetam o funcionamento das células de Purkinje e das células granulares (neurônios presentes no cerebelo), podendo resultar na falta de coordenação dos movimentos (ataxia). Para entender mais sobre os efeitos do etanol no sistema nervoso central assista a este vídeo:

Vídeo 1. Neurociência em 2 minutos: Álcool. Para legendas de vídeos em Português: clicar em CC + clicar em Configurações > Legenda > [Português] OU [Tradução automática > Português].

As pesquisas sobre o efeito do álcool sobre o cerebelo ainda precisam evoluir, mas artigos científicos afirmam que já se sabe que as estruturas na base do cerebelo também podem ser afetadas pelo consumo excessivo de álcool. Essas regiões regulam os movimentos dos olhos, então, danos a essas regiões podem causar “deslizamento” da imagem visual, resultando em ilusões visuais e instabilidade na postura do corpo. Tudo isso coopera ainda mais para que um indivíduo muito alcoolizado fique desorientado no espaço. Além disso, um estudo mostrou que o uso excessivo de álcool também pode causar uma atrofia do cerebelo (redução de seu tamanho) e uma diminuição da quantidade de neurônios dessa região. 

Figura 3. Efeito da intoxicação do etanol sobre a mensuração do Cerebelo em estudo feito com ratos. Os resultados apresentados representam as médias junto a barras de erro padrão da média. Asterisco (*) indica uma diferença significativa entre as condições (p < 0,05). Retirado da dissertação de Cunha (2014), ver referências.

A literatura científica sobre o porquê sentirmos vertigem e desequilíbrio ao ingerir grandes quantidades de bebidas alcoólicas ainda tem muito a avançar. Isso de certo modo é explicado pelo foco das pesquisas, que está sobre a relação entre o sistema de recompensas do cérebro e a dependência química ligada ao álcool. Entretanto, o que já se sabe sobre os efeitos do etanol para a coordenação motora e o equilíbrio é suficiente para entender que seu consumo em excesso pode ter consequências bastante negativas para as pessoas, inclusive a longo prazo. Depois de toda a discussão apresentada aqui, se você não quiser protagonizar memes de bêbados caindo na internet e não quiser ter suas capacidades de equilíbrio e coordenação permanentemente comprometidas, não beba demais!

Referências

Bellé, M., Sartori, S. A. & Rossi, A. G. (2007). Alcoolismo: Efeitos no aparelho vestíbulo-coclear. Revista Brasileira de Otorrinolaringologia, 73(1), 116-122. https://dx.doi.org/10.1590/S0034-7299 2007000100019

Cunha, P. A. (2014). Avaliação das alterações cerebelares decorrentes da exposição ao etanol da adolescência à fase adulta. Dissertação (Mestrado) – Universidade Federal do Pará, Instituto de Ciências da Saúde, Belém. Programa de Pós-Graduação em Ciências Farmacêuticas.  http://www.repositorio.ufpa.br/jspui/handle/2011/6225

Luo, J. (2015). Effects of ethanol on the cerebellum: Advances and prospects. The Cerebellum, 14(4), 383-385. https://doi.org/10.1007/s12311-015-0674-8

Schmidt, P. M. S., Giordani, A. M., Rossi, A. G., & Cóser, P. L. (2010). Avaliação do equilíbrio em alcoólicos. Brazilian Journal of Otorhinolaryngology, 76(2), 148-155. https://doi.org/10.1590/S18 08-86942010000200002

Sullivan, E. V., Rosenbloom, M. J., Deshmukh, A., Desmond, J. E., & Pfefferbaum, A. (1995). Alcohol and the Cerebellum: Effects on balance, motor coordination, and cognition. Alcohol Health and Research World, 19(2), 138–141. https://pubs.niaaa.nih.gov/publications/ahrw19-2/138-141.pdf

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Capa do post: Imagem de Alexandra ❤️A life without animals is not worth living❤️ por Pixabay.


Sobre a autora

Larissa de Jesus Nunes. Graduanda de Psicologia na Universidade de Brasília. Interessada em assuntos diversos: arte, tarot, animes, Kardashians, terapia cognitivo-comportamental, arteterapia, psicologia positiva etc. Adora abordar temas curiosos em seus trabalhos de faculdade e não vê a hora de finalmente se formar!

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Nunes, L. J. (2021, 25 de março). Bebeu demais e está tudo girando em câmera lenta? Saiba o porquê. Eu Percebo. https://eupercebo.unb.br/2021/03/25/bebeu-demais-e-esta-tudo-girando-em-camera-lenta-saiba-o-porque/

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