Música, percepção e emoção

Você já se pegou ouvindo uma de suas músicas preferidas e pensou “Essa música me deixa feliz e com vontade de dançar” ou “Nossa, me sinto triste ouvindo essa música”? Até mesmo no cinema, a trilha sonora tem um papel crucial em passar um sentimento que a cena ou a história quer exprimir, como nos filmes de herói, por exemplo. Ao ouvir a música tema dos Vingadores, o espectador tende a sentir-se empoderado e confiante sem nem ter um estímulo visual. Nesse caso, é o que chamamos de progressão musical (uma sequência de acordes dentro de uma escala musical, nesse caso apelidada de “Progressão do Herói”) que evoca esses sentimentos (Figura 2). Neste texto, abordaremos questões como esta que fazem uma relação entre emoção e percepção musical.

Figura 1. Como sentimos emoções ao percebermos música? Fonte: Arte e Publicidade.
Figura 2. Primeira linha para partitura da música tema de “Vingadores” para violino. Fonte: Musescore.

Os estudos sobre percepção, cognição e neurociência musical ainda são muito controversos. Porém, já conhecemos alguns dos componentes cerebrais envolvidos na experiência musical. Inicialmente, capta-se o sinal acústico do ambiente (as ondas sonoras) e em seguida há a tradução desse sinal mecânico em sinais elétricos que são enviados ao nervo auditivo (ou nervo vestíbulo-coclear). A estrutura no ouvido responsável por essa tradução é chamada de cóclea, localizada no ouvido interno (Figura 3). Após esse processo inicial, diversas outras partes do sistema cerebral serão ativadas para compor a percepção da música.

Figura 3. Localização da cóclea no ouvido. Fonte: Infoescola.

A percepção da música está claramente ligada ao sistema auditivo, principalmente às áreas primárias e secundárias e as áreas de associação auditiva nos lobos temporais. Alguns estudos observaram que o lado esquerdo do córtex auditivo primário teria como função a análise das estruturas de tempo da música, enquanto o lado direito faria a decomposição de sons. Já a área secundária processaria o timbre musical. Pode-se ver também que a percepção de duas melodias distintas pode estar ligada a uma estrutura chamada de giro temporal superior direito, também nos lobos temporais. Além disso, algumas áreas ligadas a funções de compreensão da linguagem e da fala, como as áreas de Broca e Wernicke e o sulco temporal superior, são outras ativadas pela música. A área de Broca que está relacionada à sintaxe linguistica, por exemplo, seria ativada principalmente na detecção de acordes desafinados, que quebram a “sintaxe musical” (Figura 4). O processamento musical também envolve outros processos mentais como memória, especialmente a memória de trabalho, atenção, imaginação motora, entre outros (Figura 5). Já as emoções são eliciadas pela ativação de áreas ligadas ao processamento auditivo, inclusive por estímulos musicais, de acordo com o estudo de Andrade (2004) e também pela ativação do núcleo accumbens e da amígdala.  

Figura 4. Visualização do Lobo temporal (verde), Córtex auditivo primário (vermelho), Giro temporal superior (amarelo) e Área de Broca (roxo). Adaptado de: A Mente é Maravilhosa, Istock e Wikipedia.
Figura 5. Outros processos cerebrais envolvidos pela música. Fonte: Qual é o pensamento.

A relação entre a emoção e a música ainda é pouco estudada, porém o que se sabe é que indivíduos não-músicos e músicos e até mesmo pessoas de diferentes culturas, tendem a experienciar as mesmas emoções em um mesmo trecho de música. Porém, como estudado por Juslin, as emoções básicas (alegria, tristeza, raiva, ternura e medo) são percebidas com mais acurácia pelo ouvinte, sendo difícil distinguir nuances dessas emoções ou emoções mais complexas durante a performance musical. Para ele, o músico passa essas emoções para o ouvinte através de dicas na composição estrutural da música como mudanças no andamento, ritmo e volume, sem que se mude a partitura básica. A relação entre as emoções e seus elementos musicais está representada na Figura 6. Já para Huron, utilizamos quatro informações para caracterizar a música, baseando-se em suas funções psicológica e social primordiais: o estilo, emoção, gênero e similaridade.

Figura 6. Tabela relacionando emoções provocadas pela música e as dicas musicais utilizadas. Fonte: Lisboa e Santiago (2006).

Enfim, sabemos que as emoções sentidas ao ouvirmos música estão ligadas também a processos subjetivos, como evocação de memórias e interpretação das letras. Mas é muito interessante pensarmos o quanto uma música afeta ou elicia nossas emoções. Portanto, da próxima vez que você for ao cinema, feche os olhos e tente sentir o que o filme quer te passar apenas pela música!

Referências

Andrade, P. E. (jul/ago, 2004). Uma abordagem evolucionária e neurocientífica da música. Neurociências, 1(1), 21-33.

Fornari, J. (s.d.). Percepção, Cognição e Afeto Musical. Pesquisa em Música no Brasil, 122-148. Disponível em: https://revistas.nics.unicamp.br/revistas/ojs/index.php/nr/article/viewFile/53/36

Li, T. & Ogihara, M (2003). Detecting Emotion in Music. John Hopkins University. Disponível em: http://ismir2003.ismir.net/papers/Li.pdf

Lisboa, C. A. & Santiago, D. (2006). A utilização das emoções como guia para a performance musical. XVI Congresso da Associação Nacional de Pesquisa e Pós-graduação em Música – ANPPOM, 1045-1048. Brasília.

Pederiva, P. L. & Tristão, R. M. (2006). Música e Cognição. Ciências e Cognição, 9, 83-90. Disponível em: http://www.cienciasecognicao.org

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Fonte da imagem da capa do post: medium.com.


Sobre a autora

Beatriz Cunha Cardoso Rocha. Graduanda em Psicologia (UnB) e estuda primariamente a Psicanálise e Psicologia do Trabalho. Seus estudos em Cinema e Mídias Digitais também contribuíram para áreas de interesse dentro da Psicologia, nesse caso, como as trilhas sonoras auxiliam na composição de um filme

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Rocha, B. C. C. (2020, 19 de maio). Música, percepção e emoção [Blog]. Recuperado de https://eupercebo.unb.br/2020/05/19/musica-percepcao-e-emocao/

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